por Anna Larissa Rodrigues e Bruno Barra (O Consoante)

Conceição Evaristo, escritora e ativista negra e feminista, foi nomeada patrona da FLIM (Festa Literária Internacional de Maringá) para a edição deste ano, cujo tema é resistências. Conceição esteve na noite de ontem (18), na Pré-FLIM, no auditório Hélio Moreira. A conversa com a escritora foi mediada pelo jornalista Victor Simião, da CBN, e, ao fim da noite, ela deu autógrafos e tirou fotos com o público.

A partir das 18h, a escritora esteve disponível para entrevistas. Às 19h30, iniciou-se o evento para o público, com uma apresentação da cantora Madá Alves e do pianista Vicente Neves. Logo após, o Secretário de Cultura da cidade, Miguel Fernando Perez Silva, fez uso da palavra e enfatizou a importância da arte e da cultura para a sociedade. Lembrou, também, da forte agenda cultural de Maringá e convidou os presentes para que frequentem os espaços e a FLIM. Na sequência, com o auditório lotado, Conceição Evaristo foi recebida de pé com uma longa e forte salva de palmas.

Primeiramente fora indagada sobre as personagens de seus livros e a dificuldade em publicá-los. A respeito de “Becos da Memória”, que ficou guardado na gaveta por 20 anos, visto que o mercado editorial o negou, ela explicou: “Nada que está escrito em Becos da Memória é verdade, mas nada que está escrito lá é mentira”. A patrona da FLIM comentou sobre sua linguagem e o modo como constrói suas histórias. A escritora afirmou ser boa de ouvido, observadora e muito atenta às situações. “A vida está aí nos oferecendo fatos, alegrias, sentimentos e tristezas, se você consegue trazer para a literatura, isso é ótimo”. Segundo Conceição, há uma busca por escrever o mais perto possível da oralidade porque “expressões me seduzem.”

A escritora pontuou, ainda, que os prêmios que recebeu foram importantes para seu reconhecimento, mas “o primeiro receptor da minha obra foi o movimento social negro.” Hoje seus títulos estão em vestibulares e são estudados em teses de doutoramento. A respeito de sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, ela afirmou não fazer questão de seguir o ritual, apenas dará livros a alguns membros, e ressaltou: “Sempre considerei minha literatura como uma representação do coletivo.”

Após a conversa com o jornalista Victor Simião, Conceição respondeu a questões do público. Ao perguntarem sobre a história real e a ficção, ela respondeu: “Não sou jornalista nem historiadora, não tenho obrigação de relatar os fatos como aconteceram”, e brincou: “Aí, meu filho, eu invento”. Também houve perguntas sobre a atual geração, na qual ela diz ter fé, e como recado às mulheres e homens negros acadêmicos e militantes, disse que é importante não desistir nunca. “Nossa luta vem desde os negreiros”, lembrou.

A mineira, hoje reconhecida internacionalmente, escreve dando voz aos que não tiveram vez na literatura e são até hoje subalternizados. “A escrita é uma maneira de sangrar”, destacou. Sua narração denota poeticamente a vida difícil de suas personagens e relembra sua ancestralidade. “Elas sofrem, mas cantam”. Suas obras mais conhecidas são Olhos d’água (2014), ganhador do Prêmio Jabuti, Ponciá Vicêncio (2003) e Becos da Memória (publicado em 2006, mas escrito 20 anos antes). Ao final, Conceição Evaristo gentilmente atendeu a todos e todas que desejaram fazer fotos e ter seu autógrafo.